Criada em 2019, a Macau Memory é uma base de dados digital dedicada à História e cultura de Macau, reunindo documentos, fotografias e memórias das comunidades. Ao assinalar sete anos, a equipa reconhece estar “constantemente a ‘correr contra o tempo’” para preservar um património ameaçado pela transformação urbana e pelo envelhecimento da população, enquanto procura dar-lhe nova vida através das gerações mais jovens.
A Macau Memory foi lançada em 2019. Qual foi a motivação para criar o projeto e que papel deveria desempenhar na preservação e divulgação da História de Macau?
Macau Memory – O valor histórico único de Macau enquanto ponte entre as culturas chinesa e ocidental ao longo de quase cinco séculos merece ser sistematicamente “recordado”. Essa foi a motivação inicial para a criação da “Macau Memory”.
As suas sementes foram lançadas na viragem do século. Na década de 1990, a Fundação Macau começou a organizar de forma sistemática a História e a cultura de Macau, publicando numerosas monografias académicas. Posteriormente, procurámos retirar a investigação sobre a História de Macau das torres de marfim académicas e levá-la até aos cidadãos. Em 2008, participámos numa conferência do programa “Memória do Mundo”, da UNESCO, e ficámos profundamente inspirados. Descobrimos que muitos países e regiões recorriam a meios digitais para desenvolver projectos relacionados com a memória, preservando o património documental e reforçando o sentimento de pertença e a coesão dos cidadãos.
Naquela altura, Macau atravessava um período de rápido desenvolvimento urbano e os cidadãos demonstravam grande interesse pela cultura local. No entanto, os materiais históricos eram numerosos e encontravam-se dispersos, sendo urgente proceder à sua integração. A Fundação Macau, através da sua colaboração com diversos setores da sociedade, liderou a recolha de materiais históricos dispersos em Macau e no estrangeiro, criando o projeto Macau Memory – uma base de dados online destinada a partilhar recursos históricos e culturais com o público.
Em 2019, por ocasião do 20.º aniversário do retorno de Macau à China, o sítio electrónico da Macau Memory foi oficialmente lançado.
No contexto da revolução digital da época, procurámos utilizar a “arquivação digital” para levar aos telemóveis dos cidadãos e aos computadores de leitores em Macau e no estrangeiro materiais históricos e culturais originalmente guardados em arquivos, museus e bibliotecas. Além disso, através de um sistema abrangente de palavras-chave, os dados digitalizados deram novas possibilidades às narrativas históricas. A digitalização e a nuvem criaram também condições para que o público pudesse participar na construção coletiva da memória. A Macau Memory assenta nos princípios de “construção conjunta, partilha e transmissão”, constituindo um repositório dinâmico de recursos históricos e culturais.
Como procurou a equipa equilibrar a “grande História”, baseada em documentos oficiais e investigação académica, com a “pequena História” das comunidades e da vida quotidiana?
M.M. – O formato de base de dados online cria uma plataforma para a investigação, o ensino e a divulgação da História de Macau. No vasto espaço da nuvem, a “grande História” e a “pequena História” deixaram de estar numa relação de soma zero.
Desde o início, o projeto selecionou cuidadosamente os resultados académicos da Fundação Macau, incluindo cronologias, acontecimentos históricos e figuras históricas. Integrámos também mapas antigos e arquivos provenientes de instituições de património cultural e organizações de investigação, que constituem a base desta “grande História”. Dentro deste enquadramento, a “pequena História” foi sendo gradualmente incorporada como carne e sangue, contribuindo conjuntamente para construir uma Macau Memory viva.
A recolha pública é um método fundamental para a construção conjunta da memória com a população. Pouco depois do lançamento do sítio electrónico surgiu a pandemia de COVID-19. Lançamos a recolha fotográfica “Caminhar Juntos Durante a Pandemia”, que recebeu um amplo apoio da população. Posteriormente, lançámos recolhas temáticas sobre diferentes aspectos da vida, incluindo lojas antigas, transportes e comunicações.
Nos últimos anos, fomos também às comunidades, realizando recolhas na Avenida de Almeida Ribeiro, na zona norte e nas ilhas, assegurando que a História de Macau não ficasse confinada ao “Centro Histórico de Macau”, mas que “cada zona tivesse a sua própria memória”.
Além da recolha de fotografias, convidamos especialistas e académicos a escrever artigos e a realizar palestras, construindo um sistema de conhecimento em que as memórias afetivas das comunidades complementam a História da cidade. Jogos de perguntas e respostas, sondagens online e conteúdos nas redes sociais permitem ainda envolver residentes de diferentes idades e origens.
Ao longo destes sete anos, houve alguma memória ou objeto fornecido por uma família que tenha deixado uma impressão particularmente forte na equipa?
M.M. – Ao longo dos últimos sete anos, realizámos 13 iniciativas de recolha, tendo recebido cerca de 15.000 fotografias. Cada fotografia tem um peso significativo, refletindo o apoio e a confiança do público. Muitos residentes enviaram fotografias familiares preciosas, como imagens de banquetes de casamento dos pais ou objetos pertencentes aos avós.
A “Recolha de Fotografias de Memórias de Infância”, realizada em 2023, foi particularmente envolvente. Os participantes pertenciam a diferentes gerações e os cenários retratados nas fotografias mudaram, mas todos crescemos em Macau e partilhamos memórias desta terra.
Receber estas fotografias preciosas não é o fim do percurso para a Macau Memory, mas sim o seu início. Durante o período de recolha na zona norte, por exemplo, publicámos um conteúdo sobre a área restrita da Ilha Verde. Um residente de longa data deixou mais de 20 comentários, relatando pormenores da vida na área restrita da Ilha Verde no passado.
Como diz o ditado, “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Estes comentários acrescentaram contexto, prolongando no tempo e no espaço aquilo que era uma pequena fotografia. Mais importante ainda, conseguimos verdadeiramente criar um eco junto dos residentes mais velhos e permitiu que os leitores mais jovens transmitissem essas memórias através da discussão.
Quais considera serem os principais sucessos da plataforma e quais os desafios que permanecem, nomeadamente na captação dos mais jovens, na tecnologia e na utilização dos conteúdos?
M.M. – Ao olhar para os últimos sete anos, consideramos que o maior sucesso foi retirar a História da torre de marfim, promovendo na sociedade de Macau uma cultura de conhecimento histórico e cultural, reforçando o sentimento de pertença e orgulho dos residentes, sobretudo dos jovens, e fortalecendo a coesão social.
Com base na base de dados histórica e cultural, desenvolvemos atividades online e presenciais, criando um ciclo dinâmico que vai da recolha de dados à sua divulgação. Em julho de 2024, a plataforma recebeu o “Prémio de Caso Inovador Global de Educação para o Património Mundial”, atribuído pelo Centro de Formação e Investigação sobre o Património Mundial da Ásia-Pacífico da UNESCO.
Nas vésperas do sétimo aniversário, o sítio electrónico já tinha ultrapassado os dez milhões de visualizações, a base de dados continha cerca de 46.300 documentos históricos e culturais de valor e as redes sociais contavam com 67.600 seguidores.
No entanto, à medida que aprofundámos o projeto, enfrentámos numerosos desafios. A recolha e organização dos recursos históricos e culturais de Macau constituem o núcleo do projeto. As imagens são silenciosas; cada fotografia antiga, seja propriedade privada ou cedida por uma instituição, requer uma verificação rigorosa antes de ser integrada na base de dados.
Ao organizar imagens históricas, precisamos de convidar académicos a comparar mapas antigos e atuais, trabalhando como detectives para verificar com precisão as informações relativas ao espaço e ao tempo, recorrendo às linhas das montanhas e a pistas subtis presentes nos edifícios – um processo que exige um esforço enorme.
Com o desenvolvimento da Macau Memory, o tráfego do sítio electrónico aumentou mais de 50 vezes nos últimos sete anos. Ao longo deste período, a tecnologia evoluiu continuamente, e acompanhar a vanguarda das tecnologias da informação constitui o próximo desafio. Continuaremos a otimizar a base de dados para proporcionar aos leitores uma melhor experiência de leitura.
Perante a transformação urbana e o envelhecimento da população, qual é hoje o maior desafio na recolha de História oral e na preservação das memórias locais?
M.M. – Este é, de facto, o aspecto que sentimos mais profundamente e que consideramos mais desafiante no nosso trabalho quotidiano. Enquanto plataforma de memória histórica, estamos constantemente a “correr contra o tempo”.
Os bairros antigos e as lojas tradicionais são portadores da História urbana, mas, com o envelhecimento da população e a renovação urbana, muitos dados preciosos transformar-se-ão num vazio se não forem recolhidos a tempo. Descobrimos que muitas escolas e instituições com uma longa História e ricas coleções de objetos e fotografias enfrentam o desafio de gerir a enorme quantidade e desorganização dos seus dados.
Para responder a este desafio, a Fundação Macau recorre ao seu papel de liderança governamental e aos seus conhecimentos profissionais, bem como à experiência adquirida na criação de grandes bases de dados, para oferecer “Oficinas da Memória” a escolas e instituições.
Estas oficinas introduzem processos normalizados de arquivamento digital e conceitos de megadados, proporcionando assistência prática na criação de arquivos e transformando memórias ameaçadas de desaparecer em ativos digitais duradouros.
Quais são os principais objetivos para os próximos sete anos? Como poderá o arquivo acumulado transformar-se em criação cultural contemporânea?
M.M. – A Macau Memory é a primeira base de dados abrangente de História e cultura de Macau. Nos sete anos que decorreram desde o seu lançamento, sentimos profundamente que o simples facto de tornar mais visíveis os materiais históricos desta pequena cidade já produziu um forte eco na sociedade.
Vamos continuar a ampliar a recolha, sobretudo através da colaboração com instituições da China continental e do estrangeiro, para reunir em todo o mundo materiais históricos de Macau utilizando “Macau” como palavra-chave, aprofundando o conteúdo da base de dados e fazendo da Macau Memory uma luz orientadora para o futuro, que permita iluminar ainda mais o brilho da diversidade cultural de Macau.
No que diz respeito à colaboração intersetorial e à transformação cultural, os materiais históricos que acumulámos ao longo dos últimos sete anos começaram já a ser utilizados na investigação local, em publicações e em espetáculos artísticos e culturais. Aguardamos com expectativa e damos as boas-vindas a colaborações mais imaginativas com artistas locais, editoras e equipas das áreas da cultura e das indústrias criativas.
Atualmente, o sítio electrónico da Macau Memory conta com mais de 40.000 registos históricos e culturais, cerca de 250 artigos temáticos e mais de 30 exposições. Este conteúdo aprofundado servirá como um “reservatório de combustível cultural”, acrescentando elementos humanísticos ao setor das artes e da cultura e criando uma situação vantajosa para todas as partes.
A chave para a transmissão cultural está nos jovens. As palestras temáticas do “Salão da Memória” chegaram às comunidades e escolas, atraindo mais de 23.000 participantes, enquanto as sessões realizadas nos estabelecimentos de ensino já abrangeram 90% das escolas de Macau.
No futuro, continuaremos a desenvolver o projeto “Memória do Campus”, aprofundando a cooperação com as escolas. Através do “Projecto de Recolha de Ensaios de História por Estudantes do Ensino Secundário de Macau” e do “Projecto de Formação em História e Cultura”, procuraremos orientar os estudantes para que participem diretamente na catalogação de imagens e na organização de materiais, transformando a geração mais jovem de “leitores e ouvintes” da história e cultura de Macau em “criadores da memória urbana”.
É previsível que os próximos sete anos se transformem num “motor cultural” capaz de estimular a criatividade cultural, promover o diálogo entre gerações e ligar as comunidades locais e internacionais, permitindo que a memória coletiva de Macau continue a ganhar nova vitalidade na sociedade contemporânea.

