Prefácio sobre "​Esta Cidadezinha ao Longo do Tempo”
29/09/2026


Prefácio sobre "Esta Cidadezinha ao Longo do Tempo”



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A edição original em chinês deste livro foi publicada em 2022. Naquela época, Macau já havia retornado à pátria há mais de vinte anos, e a prática do princípio “Um País, Dois Sistemas” começava a mostrar resultados positivos. Ao mesmo tempo, os estudos sobre a história e a cultura de Macau também entravam em uma fase cada vez mais madura. Com o passar dos anos, nossas reflexões sobre Macau foram se transformando em uma pergunta essencial: Por que Macau? Por que essa pequena cidade à beira do Mar do Sul da China conseguiu, ao longo de quase cinco séculos de mudanças históricas, manter-se como pioneira nos encontros, diálogos, choques e intercâmbios entre o Oriente e o Ocidente? Como ela conseguiu criar raízes profundas na cultura chinesa e, ao mesmo tempo, abrir-se ao mundo com naturalidade, formando uma paisagem cultural que pertence tanto à China quanto à humanidade? À medida que os estudos avançam e o tempo segue seu curso, as respostas para essa pergunta tornam-se cada vez mais completas, e também cada vez mais necessárias para serem compartilhadas com o mundo.

 

I. Por que Macau: De laboratório de civilizações a exemplo de coexistência

 

Embora pequena, Macau é um raro “museu vivo” do intercâmbio entre as civilizações humanas. Desde a abertura de seu porto, em meados do século XVI, a cidade nunca deixou de se conectar com o mundo. Aqui não houve substituição cultural à força, nem barreiras intransponíveis entre civilizações. Diferentes línguas, religiões, costumes, sistemas jurídicos e modos de vida coexistiram, adaptaram-se e misturaram-se ao longo de séculos nesse pequeno território, formando uma sociedade singular: Tendo a cultura chinesa como predominante, mas marcada pela coexistência harmoniosa entre diferentes culturas. Esse modelo é extremamente raro e precioso na história da humanidade. Com práticas de cinco séculos, Macau mostrou que as civilizações não precisam viver apenas em conflito ou assimilação. Elas podem coexistir; podem respeitar-se mutuamente, dialogar em igualdade e enriquecer umas às outras, criando juntas algo novo.

O caminho percorrido por Macau também deu origem a um modelo teórico muito próprio. Nos estudos recentes sobre Macau, propusemos a vigorosa doutrina da “coexistência entre civilizações”. Segundo a mesma, os sistemas políticos deixam de ser apenas regras frias escritas no papel e passam a ser entendidos como organismos vivos e capazes de crescer. O modelo de “governo liderado pelo Executivo” de Macau pode ser comparado a um sofisticado prato de gastronomia de fusão: Ele combina, de forma criativa, “ingredientes” institucionais do Oriente e do Ocidente, criando um estilo único de governança, cuja flexibilidade supera os limites de qualquer modelo isolado. A mistura cultural de Macau também não é uma simples colagem de elementos diferentes, mas um processo que gera novas vidas. As danças folclóricas portuguesas da comunidade macaense carregam tanto a suavidade da guitarra portuguesa quanto a sutileza da música tradicional cantonesa. Já o famoso “minchi” une técnicas da culinária lusas a ingredientes sínicos de maneira harmoniosa. Essa “terceira cultura” nem pertence totalmente ao Oriente, nem ao Ocidente, mas consegue dialogar naturalmente com ambos, oferecendo ao mundo pós-colonial uma nova forma de pensar a identidade cultural.

 

II. A “enzima ativa” do diálogo entre civilizações: o novo papel de Macau na nova era

 

Nos últimos anos, dentro de um contexto global cada vez mais amplo, passamos a refletir de forma ainda mais profunda sobre o papel de Macau. Diante de desafios globais como os algoritmos que aumentam divisões, o retorno das políticas de identidade e o reaparecimento das teorias do choque de civilizações, Macau precisa dar um novo salto em sua missão: Deixar de apenas provar que a coexistência entre civilizações “é possível” e passar a oferecer “soluções concretas”. Chamo essa nova posição de “enzima ativa do diálogo entre civilizações”. Isso significa que Macau não deve ser apenas um “laboratório de civilizações” do passado, mas sim transformar-se em um “conversor de civilizações”, capaz de ajudar a construir o futuro de maneira ativa.

De forma mais concreta, Macau deve assumir três funções centrais. A primeira é a de tradutora de significados: entrar profundamente na “gramática” de diferentes civilizações e conectar seus “contextos de sentido”, reduzindo mal-entendidos fundamentais causados por discrepâncias entre conceitos essenciais. Afinal, a linguagem nunca é apenas uma troca de palavras; ela também conecta formas de pensar e valores humanos. Com mais de quatrocentos anos de experiência intercultural, Macau tornou-se um dos lugares mais competentes para realizar esse tipo de “tradução profunda”. A segunda função é a de incubadora de modelos: transformar experiências locais de coexistência (como a gestão comunitária e a preservação do patrimônio cultural) em ferramentas de diálogo e modelos de cooperação que possam ser reproduzidos e compartilhados em outros lugares. A terceira é a de catalisadora de inovação: criar um “terceiro espaço” seguro e inclusivo, capaz de promover a “polinização cruzada” entre diferentes sistemas de conhecimento e estimular o surgimento de ideias originais voltadas para o futuro comum da humanidade.

Para transformar essa visão em realidade, precisamos desenvolver três grandes pilares de ação. O primeiro é construir uma “Macau do pensamento”, voltada para os estudos entre civilizações. Com o apoio das universidades e centros de investigação locais, e em cooperação com instituições do mundo inteiro, Macau pode criar um “Centro Global de Estudos sobre a Coexistência das Civilizações”, transformando sua própria experiência em conhecimento teórico e sistematizado, capaz de contribuir academicamente para o mundo. O segundo pilar é formar uma plataforma de Macau, dedicada ao diálogo entre civilizações. Isso inclui ampliar os festivais culturais e fóruns já existentes e criar um “Fórum Mundial da Coexistência”, permanente e com influência internacional, voltado para temas globais que exigem cooperação entre diferentes culturas, como ética da inteligência artificial, mudanças climáticas e saúde pública. O terceiro é desenvolver uma “Macau educadora”, preparada para o futuro. As escolas e universidades poderiam oferecer, de forma sistemática, cursos sobre compreensão intercultural e coexistência entre civilizações, usando Macau como exemplo vivo. Assim, seria possível formar uma nova geração de “tradutores de civilizações” e transformar a cidade em um importante centro internacional de educação intercultural. A principal lição do modelo de Macau está em sua visão ecológica das relações entre civilizações. Trata-se da resposta mais forte e também mais humana à teoria do “choque de civilizações” proposta por Samuel P. Huntington.

 

III. Da “disseminação do conhecimento oriental para o Ocidente” ao esforço mútuo: a missão cultural das edições em línguas estrangeiras

 

É precisamente a partir dessas reflexões profundas que decidimos publicar versões em inglês e em português de Esta Cidadezinha ao Longo do Tempo. O inglês conecta o sistema mais amplo de discurso acadêmico e público do mundo, enquanto o português articula a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, espalhada por quatro continentes – e Macau, nesse contexto, é uma ponte insubstituível entre a China e os países lusófonos. Atualmente, o Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa está sediado em Macau, alcançando quase 300 milhões de pessoas. Isso nos oferece uma vantagem institucional única e um caminho privilegiado de difusão.

A publicação desse livro em dois outros idiomas responde a uma missão cultural tríplice. Em primeiro lugar, contar uma narrativa completa de “Macau”. Desde a abertura de seu porto em meados do século XVI, Macau tem sido uma ponte entre as culturas oriental e ocidental, formando um ecossistema cultural singular de “diferenças em harmonia e harmonia em coexistência”. Aqui, não apenas se preserva a centralidade da cultura chinesa, como também se incorporam heranças da cultura portuguesa e da cultura macaense, oferecendo recursos ricos e perspectivas únicas para a difusão internacional da cultura de Lingnan e, mais amplamente, da cultura chinesa. Em segundo lugar, responder à pergunta permanente da humanidade sobre “como coexistir”. Em um mundo ainda marcado por conflitos e divisões, a experiência de Macau funciona como uma luz suave e constante, revelando a possibilidade concreta do diálogo entre civilizações. Em terceiro lugar, servir à estratégia nacional de construção de uma potência cultural sob a ideia de “uma pequena cidade, uma grande missão”. O período do “15º Plano Quinquenal” é uma fase crucial para a integração de Macau no desenvolvimento geral do país. A construção de Macau como “base de intercâmbio e cooperação da coexistência de culturas diversas, com predominância da cultura chinesa” não deve ser apenas um cartão de visita da cidade, mas também um ponto de apoio estratégico da política nacional de fortalecimento cultural. Em várias ocasiões, temos defendido que Macau é um refinado “chip cultural”, capaz de ajudar pessoas de diferentes contextos culturais a decodificar com mais facilidade a civilização chinesa. Essa capacidade de “tradução cultural” é exatamente o que se exige para fortalecer a influência e o alcance da civilização chinesa no mundo.

 

IV. Da história ao futuro: levando a Macaulogia para o mundo

 

Esta Cidadezinha ao Longo do Tempo foi originalmente escrito para jovens de Macau, utilizando uma linguagem simples e ilustrações ricas para traçar um panorama histórico e cultural de Macau desde os tempos antigos até 1945. Nesta ocasião em que se lançam duas versões em línguas estrangeiras, intenta-se transmitir, corretamente, o papel singular de Macau na história do intercâmbio entre as civilizações humanas.

Nos últimos anos, temos percebido com profunda convicção que a história, o presente e o futuro de Macau estão intimamente ligados ao destino da civilização humana. A partir de Macau, ao observar o mundo, é possível enxergar um novo caminho de progresso da civilização humana e um novo panorama, bem como construir um novo mapa do conhecimento da humanidade. A “história de Macau” é um grande pergaminho ainda em construção, escrito por você, por mim e por todos aqueles que estão dispostos a ouvir e a narrar. Por meio das versões em inglês e em português deste pequeno livro, desejamos que leitores de todo o mundo, especialmente os jovens, possam ver que, ao longo do grande curso da civilização humana, existe uma pequena cidade que, com quase quinhentos anos, contou silenciosamente uma história de abertura, inclusão e coexistência.

Esta história não pertence apenas à China, mas também a todos aqueles que se preocupam com a forma como as civilizações podem coexistir e como a humanidade pode alcançar benefícios mútuos. Esperamos sinceramente que os jovens leitores possam sentir a profundidade do patrimônio histórico e cultural de Macau, compreender o seu significado civilizacional profundo e, no futuro, tornarem-se os novos autores desta “história de Macau”, fazendo com que a beleza de Macau continue a surpreender e que a luz do diálogo entre civilizações ilumine o futuro comum da humanidade. Hong Kong e Macau são lugares de diversidade cultural e de profunda conexão entre os povos. Acreditamos firmemente que, com perseverança, a “história de Macau” se tornará cada vez mais rica e a sua narrativa, cada vez mais comovente.

 


Wu Zhiliang